Publicado por: Laura Conchacha | 13/03/2010

Povo, Terra e Gente! Um texto de autoria de Fatima Melo

Aqui a algum tempo convidei a minha amiga Fatima Melo a escrever para o “Terra da Saudade”. Hoje recebi este maravilhoso presente! Obrigado Fatima, espero receber muitos mais!
Quem sente a Nazare de coracao e com paixao e sempre bem vindo a escrever no “meu”, no “nosso” Blog! Aqui fica o desafio. Aos Nazarenos Ausentes, assim como eu, sei bem o que vos vai na Alma, por isso vamos fazer deste blog o blog de todos nos!

Povo, Terra e Gente

Quem já apreciou uma gaivota de peito esticado contra o vento, já viu a minha terra. Conhece o meu povo. As minhas gentes.

Pouco dóceis na brandura, simples na vivência, umas vezes rígidas nas convicções, outras tantas vezes…pouco convictas do que valem como povo.

Como terra.

Como gente.

Lançamo-nos de peito aberto á vida e vamos á luta.

Mesmo que esta deixe marcas na fragilidade de nos sentirmos frágeis perante um mar que nos relembra em cada vaivém das ondas que dependemos da sua vontade em continuarmos a ser terra, povo e gente.

Olhamos para ele como fonte inspiradora.

Recebemos o vento forte que atinge o peito altivo como se não fosse capaz de nos derrubar.

Olhamos esse nosso mar e por instantes nem cuidamos em ser terra, povo e gente em que cada um por si não vale nada.

Não somos nada.

Olhamos esse nosso mar e chegam-nos á memória quadros de tragédia naqueles distantes anos em que ele, o nosso mar, arrancava gritos de dor na mesma medida em que nos matava a fome.

Olhamos esse nosso mar e chegam-nos ténues imagens de sorrisos de crianças correndo na praia mal protegidos por poucos trapos cozidos uns aos outros em forma de saias, aventais, corpetes, blusas, camisas e calças.

De homens sorridentes com a pele torturada pelo sol e sal após farta pescaria.

De mulheres de rosto rosado no reencontro ansiado com o seu homem depois de tanta reza a Nossa Senhora da Nazaré contando os cabazes, esquecendo que os pés e os rins se queixavam de dores nos quilómetros que se avizinhavam na venda do peixe que traria o pão á mesa, o descanso ás contas por pagar, o tirar do prego tanta coisa que se deixava para trás saindo com a alma tão triste como a noite sem lua nem estrelas.

Viramos o peito imponente contra o vento e vamos á luta, mas no fundo, na verdade em nós… temos medo.

Temos medo, porque se deixarmos diluir da nossa memória, da memória do país e do mundo as tragédias que vivemos num passado quase ainda recente não faremos parte desse quadro típico de que se escreve a história das gentes da beira-mar em que as alegrias pouco importam perante os rios de tinta em que as más circunstâncias são destaque.

Temos receio de não estar á altura dos nossos antepassados.

De não sermos capazes de dar continuidade ás páginas que deixaram escritas na areia da praia e que tantos escritores e poetas transcreveram para as folhas dos livros em que relataram a beleza e bravura do nosso povo, da nossa terra, da nossa gente.

Temos receio de não ter a mesma capacidade de sofrimento para connosco próprios e em prol de todos, da terra, do povo, da gente que somos…

…O melhor é olharmos as nossas gaivotas, vermos como continuam a dar o peito á força do vento e como sabem se adaptar a cada viragem dos tempos sem deixarem de ser filhas do mar preparadas para as novas marés continuando a ser admiravelmente objecto de observação e admiração.

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