Publicado por: Laura Conchacha | 13/01/2010

A Mulher Nazarena!

Comecou a reviravolta pelos CD’s das marchas de carnaval, que me acompanham durante todo o ano. Mas foi a ouvir uma marcha escrita pela grande nazarena, Maria Adelia, “Ser Nazarena e ser mais” que despertou em mim a vontade de escrever um pouco sobre as Nazarenas, nos mulheres da Nazare, nos mulheres da Praia. e como quisserem chamar, a gente nao se importa!
E o que dizer sobre nos? que somos as melhores? Podemos nao ser as melhores, mas que somos especiais la isso somos!
Como a marcha tao bem nos descreves, e a leitura perfeita do que somos, porque em todas nos ha um pouco de tudo o que ela diz! Claro que nao e so qualidades tambem sao alguns defeitos! Mas no fundo e tudo bom!
Somos mulheres aguerridas com vontade de vencer, mostrar o que e nosso e ao que nos propomos! De uma maneira ou outra entre nos ha de tudo! Artistas, poetas, peixeiras, doutoras, porque tudo nesta vida e preciso! Tambem somos vaidosas, “libertinas e trapaseiras”!
Mulheres destemidas as Nazarenas prontas para tudo e com grande sentido de entre ajuda, sempre prontas para ajudar e fazer bem, sem olhar a quem!
Ja longe vao os tempos em que essas Nazarenas iam quilometros a pe com canastras de peixe a cabeca, a minha avo Ana ia a pe a A-Do-Barbas e a Maceirinha vender! Grandes lutadoras, enfrentavam tudo e todos, debaixo de chuva ou de sol, nao tinham medo!
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e tambem os costumes! Hoje tudo e diferente, mas muita coisa continua igual, a mulher Nazarena continua a ser uma “lider”, e ela que continua a governar a casa, e a resolver a vida familiar, enfim e uma “matriarca”. Ao redor dela tudo se continua a resolver e sempre dela a palavra final. Porque ao fim ao cabo ninguem se meta com uma Nazarena “danada”! Quem e que se atreve? Penso que ninguem!
Ainda me lembro do tempo que havia os “ralhos” entre vizinhas, as vezes por coisas tao sem razao, como por exemplo, alguma vizinha ao lavar a porta deixava a agua correr para a porta da outra, era o fim do mundo, porque Nazarena e assim mesmo, entao era engracado a gritaria e nos garotos na altura, correndo pelas ruas fora para ir ver os “ralhos”, era cabelos “arrancados”, todas “arranhadas” e as vezes, o que era quase sempre, eram elas que se arranhavam a elas proprias e por fim os tao conhecidos “desmaios”! Velhos tempos que ao fim ao cabo ficarao para sempre na nossa memoria.
Secalhar, nos as Nazarenas, somos um pouco “rebeldes”, gostamos de ter o nosso espaco e de mostrar do que somos capazes, desde sempre a Nazarena e uma mulher activa e resoluta. O homem que se dedicava a vida do mar, mas era a mulher em terra que tratava da vida, da casa, dos filhos e de tudo o que estava inerente a vida, era ela que resolvia a vida do marido e depois era ela que aquando do regresso do homem do mar, “acartava” o peixe em cabazes a cabeca para a lota e depois, e quase sempre, ia vender o mesmo, ou porta a porta pela Nazare ou por outras terras, o “ir fora” como e conhecido entre nos Nazarenos!
Hoje em dia tudo e diferente mas para melhor, quase todas as nazarenas tem carta de conducao e guiam uma “carrinha” com a qual vao vender peixe aos mercados. O que sao os tempos, e impresionante.
A uns tempos a esta parte, tambem temos as “Mulheres dos Chambres”, a principio era so durante a epoca de verao, mas agora e por quase todo o ano, pois e um modo de sobrevivencia, para algumas delas o seu “emprego”, pois dai tiram o sustento para a familia. Entao e ve-las de “placa” na mao a oferecer os “Chambres” e por vezes fazem-nos voltar a viver tempos antigos, quando ha os “ralhos” porque alguma se meteu no negocio da outra. Por isso o tempo passou, mas a Nazarena continua a ser o mesmo, gostamos de manter o nosso espaco, de nos fazermos sentir presentes e que ninguem se meta no nosso caminho!
E como a marcha diz:
“Ser Nazarena e ser mais,
Mais mulher, bela tambem,
E ter brilho no olhar
E ter graca no falar
Como outra mulher nao tem”

“Ser Nazarena
E ter a forca do Mar
E gritar sem se cansar
Venham muitos Carnavais!”
Ser Nazarena e o que somos todas nos!

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Responses

  1. fantástico texto, como sempre.
    😉

  2. Do sofrimento se faz um povo.
    Por muito que esta frase pareça cruel, essa é a verdade nua e crua.
    Os tempos passam, mas há “marcas” que atravessam gerações.
    Antigamente as mulheres da praia viam-se a braços com os filhos agarrados ás saias, o homem no mar de onde nunca sabiam se voltaria, a gerência dos tostões que eram sempre quase nenhuns, a solidariedade entre família e vizinhos na fome e nas doenças ruins, calcorreavam quilómetros a pé (a maior parte descalças) para vender o peixe ou o magro “q’enhão” que cabia ao seu homem depois da pesca e ainda assim, no meio das dificuldades, havia espaço para as barrigadas de rise nas codrelhices, havia espaço para cantar enquanto se varria a barraca ou o modesto lar de portas e janelas abertas de par em par, havia imaginação para fazer d’um trape uma saia nova, dos restos da saia uma passadeira e dos bocados pequeninos uma algibeira.
    E tanta outra coisa…

    Os homens, os nossos valentes homens, entregavam a vida a Nossa Senhora da Nazaré quando estavam no mar e ás suas mulheres quando estavam em terra, onde repousavam da vida difícil que enfrentavam a cada reencontro com este mar sagrado.
    Talvez por isso no Carnaval se vestissem (e vistam) de mulher nas cegadas e brincadeiras para uma vez por ano lhes vestirem a pele e assim lhes prestar homenagem.

    Hoje em dia tudo é diferente, claro que sim.
    Mas esta força que nos atravessa o corpo e alimenta a alma só ficará desbotada se não souber-mos transmitir ás gerações vindouras quem fomos e quem somos.
    E, essencialmente, transmitir o orgulho de sermos Nazaré.


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